Ao decidir-me por retomar os passos oitavo e nono (quais sejam: 8. Fazer uma relação de todas as pessoas que prejudiquei e me dispor a reparar os danos causados e; 9. Fazer reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem), abdiquei das minhas férias. A sanidade mental vem em primeiro lugar, e de que adiantam dias ensolarados de dolce far niente se estamos cruelmente sós, tendo sido abandonados por todos os objetos de nosso afeto?
Antes mesmo do Natal, quando a quantidade de vodka necessária para aliviar meu mau humor matinal e manter-me amigável até o fim da tarde começou a comprometer não só o fígado, como também minha pele, eu disse: basta! Atirei-me às minhas caixas, em busca da boa e velha agendinha de telefones. Aquela que resistiu a todos esses anos, aos inúmeros celulares e smart phones que passaram pela minha vida; aquela onde anotei todos os números que realmente importaram durante esta breve e solipcística existência: ela é azul e tem um buda estampado na capa.
Metodologia
Cada neurótico deve criar o seu próprio método de seleção de candidatos às reparações. Para mim,
a regra número 1 é: o telefone deve ter oito dígitos. É muito desagradável se desculpar para alguém que não se lembra de você. E foi o que aconteceu com um Leonardo de sete dígitos, alguém que fez parte da minha vida, brevemente, em 1990. É importante delimitar um período, para que o processo seja menos indolor (a não ser que dor seja um lance importante para você). 1999 é meu ano zero. Com todo o respeito, que se fodam as pessoas por mim magoadas durante a década de 90. Também desprezo as que sofreram depois de 2010: é muito recente, que esperem até a próxima década.
Há quem goste de fazer suas reparações por ordem alfabética, mas eu prefiro um método mais ichinguiano. Abro a página da agenda e meto o dedo. É muito importante contar com a sorte. E se acostumar a não tê-la.
Brevemente, narrarei algumas das difíceis porém não-compensadoras situações em meu último processo de limpeza reparatória. Não é muito interessante, já adianto.
a casa da neurótica anônima
um espaço para neuróticos. por uma neurótica.
segunda-feira, 14 de março de 2011
quinta-feira, 10 de março de 2011
Reparação/Atonement
Caros e reincidentes colegas neuróticos,
mais uma vez, peço perdão pelo afastamento, se é que foi notado. O ano terminou, tirei culpadas férias e, numa luta entre meu superego e a preguiça - vejam vocês! - venceu a preguiça, que me garantiu até o fim do carnaval (o real início do ano) de dolce far niente. Em termos, é claro. Como uma boa neurótica nunca descansa, aproveitamos, meu superego e eu, para refazer dois importantíssimos passos - o oitavo e o nono. Quais sejam:
8. Fiz uma relação de todas as pessoas que prejudiquei e me dispus a reparar os danos causados.
9. Fiz reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo signifiscasse prejudicá-las ou a outrem.
O que humildemente reparei nos últimos tempos é o interessante ciclo neurótico que insistimos em percorrer:
1. Acreditamos ser infernizados pelo Outro.
2. Nos defendemos, infernizando-os.
3. Sentimos culpa, mas não paramos de infernizar o Outro que, desesperado, nos ostraciza (deixando-nos mais neuróticos), ou torna-se mais neurótico (deixando-nos mais neuróticos), ou ambas as coisas. No pior dos cenários, levamos o Outro à psicose e o perdemos para sempre.
É com essa sutilíssima dinâmica que habilmente destruímos todas as nossas chamadas 'relações' - os estranhos vínculos de neurose de complementaridade variável que estabelecemos com o Outro. Um neurótico mais ingênuo pode perguntar "mas não é de fato melhor terminar relações neuróticas, co-dependentes, destrutuivas?" A minha resposta é "sim, se o seu objetivo for ficar sozinho por toda a eternidade". Em nosso núcleo de estudos, partimos do pressuposto de que TODAS as relações de um neurótico são neuróticas, algumas mais, outras menos complementares e, portanto, mais ou menos tóxicas. Note que a relação é direta: quanto mais complementar, mais tóxica.
A solução? É ainda desconhecida. E daí vem a importância da frequente repetição dos passos oitavo e nono, que funcionam como uma espécie de paliativo, de aspirina das relações, renovando-as até que a sanidade, por fim, nos separe.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Neurose em transe
Estava eu estafada, sofrendo o meu fim de ano normalmente - as intermináveis DRs com meu superego, próxima de um colapso nervoso - quando, atordoada, tropecei no meu próprio pé e dei com o joelho, as mãos e o queixo no asfalto. Graças ao Poder Superior, protegi o meu nariz de ser quebrado em inúmeras partes assimétricas às vésperas do reveillon e me poupei de um 'acting out' desesperado por atenção negativa (cousa que não consegui evitar no ano passado: um corte de cabelo devastador, tipo cuia, foi o catalisador de todos os males da passagem de 2009 para 2010, cujas consequências deixarei para relatar em outra ocasião).
O queixo foi apenas levemente esfolado (o que acredito que tenha me dado um ar interessante, aventureiro) enquanto o joelho esquerdo foi di-la-ce-ra-do. Já esquisitinho por natureza, o joelho ganhou um aspecto peculiar: os roxos e as bolhas o transformaram numa espécie de alien ao resto do corpo. Ele tomou vida própria e se recusava a colaborar com a engrenagem.
Este corpo que não me pertence lutou por algum tempo, mas a força alienígena venceu e me vi encerrada numa cama.
E foi então que se deu o inesperado: tive os cinco melhores dias da minha vida.
A incapacidade de me movimentar e a obrigatoriedade de me valer dos mais inovadores medicamentos contra a dor me trouxeram uma serenidade nunca antes atingida na história da minha humanidade, apesar dos intermináveis pranayamas a que venho sendo submetida desde a tenra infância.
De uma hora para outra, todo o entulho mental desapareceu, por alguns dias, como se eu tivesse sido bem sucedida no comando do meu próprio "empty trash".
Meu superego perdeu todos os seus demoníacos poderes. Eu não era obrigada a trabalhar, tampouco era obrigada a sofrer ao não fazê-lo. Eu comia pacotes de bono, os de chocolate. Eu simplesmente não li "o sistema das artes" de hegel, que me encarava há sabe-se-lá quantos meses do meu criado mudo; nem tentei acompanhar as crises políticas e sociais nos jornais internacionais (coisa que não faço por 'falta de tempo' e que me vale brutal punição). Nada, companheiros, nada. Por alguns dias, fui impermeável à culpa tal qual um amantegado sujeito de teflon.
E aí melhorei, se é que se pode dizer isso. O joelho melhorou. Os remédios acabaram (incidentalmente, tive pequeno atrito com o médico que se negou a me conceder nova receita e fui obrigada a abrir processo do qual falarei oportunamente). E o status quo neurótico se restabeleceu. Há moral nesta história?
terça-feira, 23 de novembro de 2010
neurose psicótica?
Já namorei um psicótico e sei, portanto, que apesar de alucinar 80% do tempo, não passo de mera neurótica. Nos 20% restantes, estou ciente de que preservo todos os meus (de alguma forma amados) defeitos e imperfeições.
O psicótico por quem me apaixonei era um vizinho. Ele parecia um cara normal e tímido e, como eu estava tentando me manter longe dos narcisistas arrogantes, me pareceu perfeito. O pobre diabo não era má pessoa, mas era esquizóide e delirante. Ou tornou-se em sua convivência comigo, conforme alegou ao romper o relacionamento.
Ele começou ouvindo vozes, nada demais. Tinha uma espécie de narrador interno (diferente do Rônisson, meu superego interlocutor), com quem não se comunicava. O narrador previa os seus atos e fazia com que ele os dissesse em voz alta, apresentando a ação. Tipo: "Ele vai escovar os dentes", dizia o meu ex, expressando ordem do seu narrador interno. And off he went. Até aí, esse defeitinho me parecia reconfortante. Mostrava que o meu ex tinha idiossincrasias, assim como eu. Éramos um casal de adoráveis esquisitos.
Só que o tempo foi passando, e os delírios paranoides surgiram. Eu não podia conversar com ninguém. E não era ciúme (o que eu acharia fofo): ele tinha certeza de que eu tramava contra a sua vida. Logo, era eu atender o telefone que ele se jogava no chão e se protegia da bomba acionada pelo meu terrível "alô".
Depois de tentar me afogar na banheira, temeroso de uma suposta tentativa minha de envenenar suas águas, ele simplesmente pediu um tempo. Estava confuso. Não sabia o que queria. Ainda deixei um pen drive e os meus óculos no apartamento dele, algo que sugerisse um encontro posterior, mas ele simplesmente nunca mais atendeu ao meu toque de campainha. E foi transferido para outra clínica.
O psicótico por quem me apaixonei era um vizinho. Ele parecia um cara normal e tímido e, como eu estava tentando me manter longe dos narcisistas arrogantes, me pareceu perfeito. O pobre diabo não era má pessoa, mas era esquizóide e delirante. Ou tornou-se em sua convivência comigo, conforme alegou ao romper o relacionamento.
Ele começou ouvindo vozes, nada demais. Tinha uma espécie de narrador interno (diferente do Rônisson, meu superego interlocutor), com quem não se comunicava. O narrador previa os seus atos e fazia com que ele os dissesse em voz alta, apresentando a ação. Tipo: "Ele vai escovar os dentes", dizia o meu ex, expressando ordem do seu narrador interno. And off he went. Até aí, esse defeitinho me parecia reconfortante. Mostrava que o meu ex tinha idiossincrasias, assim como eu. Éramos um casal de adoráveis esquisitos.
Só que o tempo foi passando, e os delírios paranoides surgiram. Eu não podia conversar com ninguém. E não era ciúme (o que eu acharia fofo): ele tinha certeza de que eu tramava contra a sua vida. Logo, era eu atender o telefone que ele se jogava no chão e se protegia da bomba acionada pelo meu terrível "alô".
Depois de tentar me afogar na banheira, temeroso de uma suposta tentativa minha de envenenar suas águas, ele simplesmente pediu um tempo. Estava confuso. Não sabia o que queria. Ainda deixei um pen drive e os meus óculos no apartamento dele, algo que sugerisse um encontro posterior, mas ele simplesmente nunca mais atendeu ao meu toque de campainha. E foi transferido para outra clínica.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
neurosis and depression in Paris
Estive eu a passear pela Bienal outro dia e, quando fui encontrar um amigo para almoçar, era incapaz de dizer se tinha gostado ou não do que vi. De fato, eu não tinha a menor idéia do QUE tinha visto. Não me lembrava de nada; absolutamente nada. Meu bom amigo, inocente, ficou preocupado. Estaria eu com alguma forma de Alzheimer's precoce? Alguma disfunção neurológica? Seria estafa?
Não sei você, colega neurótico, mas eu passo tanto tempo me observando e dialogando com o Rônisson, meu superego dominante, que acabo vendo, escutando e degustando muito pouco. Já fui a Paris, por exemplo, e até sei que fui ao Café de Flore, mas me pergunte o que me emocionou, o que aprendi, o que realmente vi, o que comi. Não adianta. Eu apenas reiterei o que já sabia sobre o meu limitado universo mental, comendo uns croissants no Boulevard St. Germain.
Claro que é patético. O bom neurótico, eu creio, não importa o grau de inteligência, transita entre poucas idéias, todas repetidas ad eternum. Estive no Louvre, isso eu sei. Mas quando chegava perto de qualquer obra de arte, só conseguia pensar na minha inabilidade de pertencer a qualquer lugar que seja. Ali, rodeada de japoneses, com suas poderosas câmeras que mediavam o olhar e a Mona Lisa, a única coisa que consegui me sentir foi estrangeira.
Encontrei um ex-namorado, vejam só: vagando pela Rue de Rivoli, sozinho. Andávamos um ao encontro do outro numa tarde fria. Eu já tinha amado esse cara. Eu já quis morrer por esse cara (uma vez em Búzios). E ele pareceu verdadeiramente feliz em me reencontrar. Só que Rônisson desgostou imediatamente do casaco dele e, destilando seu veneno, acrescentou que o corte de cabelo era muito 1999. Estávamos em 2008. Escutei Rônisson e segui o meu caminho, acompanhada do meu superego, em direção às catacumbas.
Não sei você, colega neurótico, mas eu passo tanto tempo me observando e dialogando com o Rônisson, meu superego dominante, que acabo vendo, escutando e degustando muito pouco. Já fui a Paris, por exemplo, e até sei que fui ao Café de Flore, mas me pergunte o que me emocionou, o que aprendi, o que realmente vi, o que comi. Não adianta. Eu apenas reiterei o que já sabia sobre o meu limitado universo mental, comendo uns croissants no Boulevard St. Germain.
Claro que é patético. O bom neurótico, eu creio, não importa o grau de inteligência, transita entre poucas idéias, todas repetidas ad eternum. Estive no Louvre, isso eu sei. Mas quando chegava perto de qualquer obra de arte, só conseguia pensar na minha inabilidade de pertencer a qualquer lugar que seja. Ali, rodeada de japoneses, com suas poderosas câmeras que mediavam o olhar e a Mona Lisa, a única coisa que consegui me sentir foi estrangeira.
Encontrei um ex-namorado, vejam só: vagando pela Rue de Rivoli, sozinho. Andávamos um ao encontro do outro numa tarde fria. Eu já tinha amado esse cara. Eu já quis morrer por esse cara (uma vez em Búzios). E ele pareceu verdadeiramente feliz em me reencontrar. Só que Rônisson desgostou imediatamente do casaco dele e, destilando seu veneno, acrescentou que o corte de cabelo era muito 1999. Estávamos em 2008. Escutei Rônisson e segui o meu caminho, acompanhada do meu superego, em direção às catacumbas.
sábado, 6 de novembro de 2010
Neuróticos, uni-vos!
Ó companheiros neuróticos (incluindo o que já abandonou o blog e que estará sempre em minha mente doentia),
Como dizem os nossos colegas alcóoltras (ou alcoolicos?), "sair do trilho" faz parte da doença, não da recuperação. E eu, admito, recaí nos ultimos tempos: neurotizei geral. Pelas razões mais variadas e cuja alavanca foi o dia 2 de novembro. Sim, o dia que os nossos amigos mexicanos, sem eufemismos, chamam de dia dos mortos. Qualquer neurótico que se preze, no hemisfério sul, começa sua depressão de fim de ano já no dia dos finados (mesmo que a palavra finados tenha ganhado com o passar dos anos um tom de comicidade e com ela a capacidade de nos distrair da Verdade absoluta, que é o fim). Quando era mais jovem e tão neurótica quanto, eu saía às ruas vestida de branco, tal qual nossos amigos merricanos, num solitário e auto-consciente protesto contra a esperada. Logo me sentia uma idiota e voltava para casa, mais deprimida ainda.
De qualquer forma é assim: sai ano, entra ano, novembro se aproxima e a sensação de improdutividade ou de produção de baixa qualidade se arrefece. Sim, porque novembro é quando se percebe que o ano vai terminar. E que não vai esperar por neurótico vagabundo nenhum correr atrás do tempo perdido. Já se ouvem os borburinhos (mesmo que você não seja esquizofrênico) nas ruas, nos salões, nos escritórios. "O ano acabou!", dizem as vozes enfáticas.
E é por isso que eu estou aqui, rogando aos companheiros que se unam para um final de ano menos tortuoso. Eu voltarei aos passos, prometo. Até consegui me apaixonar por um homem que não era casado nem N. O problema é que ele morava na Itália e era gay. Mas vejam só.
De volta aos passos e, acima de tudo, de volta ao blog. Por uma neurose administravel em 2011!
Como dizem os nossos colegas alcóoltras (ou alcoolicos?), "sair do trilho" faz parte da doença, não da recuperação. E eu, admito, recaí nos ultimos tempos: neurotizei geral. Pelas razões mais variadas e cuja alavanca foi o dia 2 de novembro. Sim, o dia que os nossos amigos mexicanos, sem eufemismos, chamam de dia dos mortos. Qualquer neurótico que se preze, no hemisfério sul, começa sua depressão de fim de ano já no dia dos finados (mesmo que a palavra finados tenha ganhado com o passar dos anos um tom de comicidade e com ela a capacidade de nos distrair da Verdade absoluta, que é o fim). Quando era mais jovem e tão neurótica quanto, eu saía às ruas vestida de branco, tal qual nossos amigos merricanos, num solitário e auto-consciente protesto contra a esperada. Logo me sentia uma idiota e voltava para casa, mais deprimida ainda.
De qualquer forma é assim: sai ano, entra ano, novembro se aproxima e a sensação de improdutividade ou de produção de baixa qualidade se arrefece. Sim, porque novembro é quando se percebe que o ano vai terminar. E que não vai esperar por neurótico vagabundo nenhum correr atrás do tempo perdido. Já se ouvem os borburinhos (mesmo que você não seja esquizofrênico) nas ruas, nos salões, nos escritórios. "O ano acabou!", dizem as vozes enfáticas.
E é por isso que eu estou aqui, rogando aos companheiros que se unam para um final de ano menos tortuoso. Eu voltarei aos passos, prometo. Até consegui me apaixonar por um homem que não era casado nem N. O problema é que ele morava na Itália e era gay. Mas vejam só.
De volta aos passos e, acima de tudo, de volta ao blog. Por uma neurose administravel em 2011!
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
O inventário moral
Após entregar minha vontade e minha vida aos cuidados de um poder superior, dei o quarto passo: Fiz (na medida do possível) destemido inventário moral de mim mesma. Foram dois anos para editar o documento que hoje encontra-se emoldurado, enfeitando o meu local de trabalho. Quando chegou o momento de realizar o quinto passo - admitir perante o poder superior, para mim mesma e para outro ser humano (a moça que trabalha na cafeteria) a natureza exata das minhas falhas, o outro ser humano perdeu um dia inteiro de trabalho e acabou sendo sumariamente demitido. Depois de incluir "egoísmo" e "uso pessoas como uso kleenex" na minha lista e lidar com a culpa, voltei aos passos.
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